o dente ausente

stêvz
4 min readJul 10, 2017

[publicado originalmente no zine de mesmo nome]

De todas as formas de intervenção gráfica urbana talvez nenhuma se equipare, em simplicidade e eficácia, ao bom e velho dente preto. Da brincadeira infantil ao détournement situacionista, a transfiguração do sorriso perfeito, branco, e sobretudo irreal, das revistas de bordo, das famílias-modelo dos bancos de imagem, subvertido enfim — para agonia ou lucro dos odontologistas — em uma caricatura desprovida de poder de sedução[1], pode ter mais a dizer do que à primeira vista possa parecer, e justamente por chamar, por meio do detalhe, a atenção para o quadro geral em exposição.

Inoculado discretamente na arcada dentária sob medida, no clareamento dental forçado da fotografia, o dente frontal ausente — ocasionalmente o alface ou a casca de feijão, na vida real — é, antes, a negação da adequação estética e social. O espaço vazio, então demarcado, permite e convida a enxergar através da ilusória perfeição fabricada — tanto invejável quanto inatingível — do anúncio publicitário. É a lacuna que revela sua verdadeira natureza fantasmagórica. Mas não convém exagerar: bastarão um ou dois incisivos rasurados para transmitir o conteúdo irônico quase imperceptível, subliminar. Para além disso, o grotesco reconfigura de tal modo a imagem que a metamorfose é total, passando mais ao efeito puramente destrutivo e rancoroso da violência do que à apropriação lúdico-didática do espaço privilegiado no imaginário do leitor (no caso dos impressos) ou transeunte (nos outdoors e totens luminosos). A modesta anodontia contida supera, em muito, a monocelha, os pelos faciais exagerados, os chifres, cornos, lágrimas, tapa-olhos ou acessórios de qualquer espécie[2]. Sua simplicidade plástica incisiva e pontual conquista, com o mínimo esforço, o máximo resultado sugestivo (além de adquirir toda uma nova dimensão no campo da publicidade de dentifrícios — por razões óbvias), é tanto mais subversiva quanto mais discreta e econômica.

Nem mesmo a imagem do mais simétrico dos galãs ou das protagonistas da novela, do mais heróico dos filantropos, do mais imaculado dos candidatos políticos, será capaz de resistir à simples rasura precisa de um dos caninos, com efeito diretamente proporcional à solenidade da efígie em questão. O rei está nu, é esse o recado. Os deuses também são humanos, imperfeitos e ridículos como todos nós. E, pelo menos enquanto nos observarem impassíveis do alto de sua superioridade enquadrada no olimpo publicitário, não poderão se defender das eventuais descorreções estéticas. O falso padrão despojado de beleza física e moral a ser aspirado pelos pobres mortais está agora, também, além do alcance deles; e é por isso que a falta do dente representa, como uma lâmpada apagada, a decadência inevitável do sistema, a morte de seus ícones. A falha da máquina soberana que, ainda assim, depende do empregado encarregado pela sua manutenção que troque o óleo de vez em quando.

De símbolo discriminatório que remete ao homem do campo, humilde e sem recursos, o defeito, a deformação facial do rosto banguela enquanto questão social passa a sugerir um segundo olhar, mais atento, à mensagem do quadro[3] exposto sob os dizeres consumistas persuasivos — ou slogans de campanha — e tão exaustivamente repetidos que tendem a ser absorvidos em um nível inconscientemente nocivo pela população. Reconfigurada, a obra adquire novo significado.

A ausência do dente, sua peculiaridade individualizadora, deve ser preenchida pelo observador — qual acontecimento específico terá causado a perda do nariz da esfinge, dos braços da vênus, afinal, e por quê? — , inicia uma possível indagação intelectual antes adormecida. O sinal “repugnante” exposto no rosto obriga o olhar a se desviar, fugir do sorriso enganador para reparar no contexto, perceber a mensagem oculta por trás das imagens do simulacro agora evaporado. O modificador anônimo de anúncios, como quem coloca os pingos nos is, expõe as entrelinhas do sistema, a caneta convertida em odontagogo, o alicate simbólico que extirpa a superioridade ora implícita pela moldura, pelas frases de efeito e palavras de ordem e até pela iluminação sacralizada reservada para os anúncios no espaço urbano. O banguelismo gráfico erode, dente por dente, o culto à auto-imagem, a cultura do selfie[4], a imposição midiática do conformismo e do consumo desenfreados.

  1. O sorriso satisfeito do modelo fotográfico é, antes de tudo, ameaçador. Impõe um desafio condescendente com o qual somos confrontados diariamente pelas ruas, nas revistas das salas de espera, nos pop-ups, banners e especialmente na televisão — aqui, deixa de ser estático para tornar-se ainda mais normalizado e protegido da intervenção banal, tendo que para isso ser retirado do contexto, manipulado de forma eletrônica.
  2. No entanto, as possibilidades para a interferência especificamente odontológica têm se tornado cada vez mais raras. Por isso, convém aproveitar qualquer janela de oportunidade que apareça. É preciso estar preparado, trazendo sempre uma caneta no bolso.
  3. A rasura odontológica é um ato político, mas sobretudo artístico.
  4. Para tanto, surgem o recurso do duck-face, o famoso beicinho sedutor, ou o look blasée: todos à prova de dentes pretos.

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